Era domingo e como todos os
domingos as ruas estavam desertas. Vez ou outra passavam algumas pessoas, na
maioria famílias, bem vestidas que iam e vinham (vestidas de domingo - na época reservavam-se as roupas "boas" somente para este dia).
Para entrada da minha casa
havia um portão de madeira, e um longo corredor, com piso cimentado, entre uma
casa e outra até chegar nos fundos, onde dava para a casa. Nesta época contava
com meus oito anos de idade. Gostava de sentar-me na calçada, ao chão do portão
pra brincar de boneca, de bola, de gude ou somente observar o movimento na rua.
(era normal este procedimento, inclusive os vizinhos se encontravam sempre nos
portões de casa para conversar, ou para fofocar).
Meus pais eram cristãos, católicos,
mas não frequentavam com assiduidade a igreja. Apesar disso exigiam que eu e
meus irmãos fossemos sempre a missa aos domingos.Minha mãe tinha o hábito de
rezar o terço. Quase sempre eu e meus
irmãos tínhamos que ajudá-la nas novenas intermináveis. E essa rotina acabava
sendo chata, porque ela nos reunia em volta de sua cama, chegava ser engraçado
porque ela falava a primeira parte da Ave Maria e a segunda parte nós tínhamos
que completar em coro: - Santa Maria Mãe de Deus rogai por nós p e
c a doooo rrrrriiiiii sss ago e na hora d rsrsrsrsr. Nunca conseguíamos completar a segunda parte,
porque só de olhar um para o outro a gente rachava de rir. Nossa mãe ficava
furiosa. No final acabávamos apanhando. E assim sempre se repetia, toda às
vezes, punha o chinelo em cima da cama e nos avisava logo: Olhem não quero
brincadeira, senão vocês vão apanhar. Coitada de nossa mãe, nem adiantava
avisar!
Mas foi assim que aprendi a
rezar o terço, brincando e apanhando.
Neste dia de páscoa a rua
estava especialmente bonita, não sei porquê, mas havia uma energia diferente no
ar. Enquanto aguardava o almoço, sozinha, sentei-me no mesmo ponto, acabara de
vir do catecismo e ainda vestia o meu vestido de domingo. Como distração peguei
uma pedrinha e comecei a rabiscar o chão de terra, enquanto cantalorava alguma
música. Despercebida alguém segurou a minha mão, sem dizer nada e num gesto
delicado colocou algo. Ainda com a cabeça baixa, olhei para as mãos e vi três
ovos de chocolates. Meus olhos brilharam de felicidade, pensei rápido: - ôba
ganhei ovinhos de páscoa!!! Levantei o rosto com um sorriso largo nos lábios,
na ânsia de agradecer aquele alegre presente, mas não vi mais ninguém. Olhei em
direção da calçada, vi um homem de cor escura, vestia terno branco (com marcas,
mais parecendo um tecido de linho pesado), de costas se afastando lentamente de
mim. Olhei em volta a rua estava deserta. Quis chamá-lo para agradecer-lhe, não
tive tempo, o homem simplesmente sumiu na minha face.
Esta cena aparentemente sem
importância, não teria importância se a mesma não perpetuasse por quatro
décadas. A mesma permanece viva em minha mente. Anos e anos especialmente aos
domingos de páscoa revivo esta cena. O impressionante disso tudo é a calma que
traz aquele momento, aquele homem em nenhum momento transmitiu nem medo e nem
aflição, ao contrário, preservo a alegria, paz e a serenidade daquele momento
único, quando sinto sua presença. Preservo um pensamento de carinho, a um amigo de fé de todas as horas e busco sua proteção e guarda, porque:
- Meu anjo apareceu!
O tempo passou mas a criança
que ainda há dentro de mim acredita que o anjo apareceu. E que todas as pessoas
tem um anjo. Aquele que protege, guarda e ampara: Um soldado a serviço de Deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Favor deixe seu comentário aqui.