4 de outubro de 2013

A criança e o anjo


Era domingo e como todos os domingos as ruas estavam desertas. Vez ou outra passavam algumas pessoas, na maioria famílias, bem vestidas que iam e vinham  (vestidas de domingo - na época reservavam-se as roupas "boas"  somente para este dia).

 Para entrada da minha casa havia um portão de madeira, e um longo corredor, com piso cimentado, entre uma casa e outra até chegar nos fundos, onde dava para a casa. Nesta época contava com meus oito anos de idade. Gostava de sentar-me na calçada, ao chão do portão pra brincar de boneca, de bola, de gude ou somente observar o movimento na rua. (era normal este procedimento, inclusive os vizinhos se encontravam sempre nos portões de casa para conversar, ou para fofocar).

Meus pais eram cristãos, católicos, mas não frequentavam com assiduidade a igreja. Apesar disso exigiam que eu e meus irmãos fossemos sempre a missa aos domingos.Minha mãe tinha o hábito de rezar o terço.  Quase sempre eu e meus irmãos tínhamos que ajudá-la nas novenas intermináveis. E essa rotina acabava sendo chata, porque ela nos reunia em volta de sua cama, chegava ser engraçado porque ela falava a primeira parte da Ave Maria e a segunda parte nós tínhamos que completar em coro: - Santa Maria Mãe de Deus rogai por nós p  e   c  a  doooo  rrrrriiiiii sss  ago e na hora d  rsrsrsrsr. Nunca conseguíamos completar a segunda parte, porque só de olhar um para o outro a gente rachava de rir. Nossa mãe ficava furiosa. No final acabávamos apanhando. E assim sempre se repetia, toda às vezes, punha o chinelo em cima da cama e nos avisava logo: Olhem não quero brincadeira, senão vocês vão apanhar. Coitada de nossa mãe, nem adiantava avisar!

Mas foi assim que aprendi a rezar o terço, brincando e apanhando.

Neste dia de páscoa a rua estava especialmente bonita, não sei porquê, mas havia uma energia diferente no ar. Enquanto aguardava o almoço, sozinha, sentei-me no mesmo ponto, acabara de vir do catecismo e ainda vestia o meu vestido de domingo. Como distração peguei uma pedrinha e comecei a rabiscar o chão de terra, enquanto cantalorava alguma música. Despercebida alguém segurou a minha mão, sem dizer nada e num gesto delicado colocou algo. Ainda com a cabeça baixa, olhei para as mãos e vi três ovos de chocolates. Meus olhos brilharam de felicidade, pensei rápido: - ôba ganhei ovinhos de páscoa!!! Levantei o rosto com um sorriso largo nos lábios, na ânsia de agradecer aquele alegre presente, mas não vi mais ninguém. Olhei em direção da calçada, vi um homem de cor escura, vestia terno branco (com marcas, mais parecendo um tecido de linho pesado), de costas se afastando lentamente de mim. Olhei em volta a rua estava deserta. Quis chamá-lo para agradecer-lhe, não tive tempo, o homem simplesmente sumiu na minha face.
 
Esta cena aparentemente sem importância, não teria importância se a mesma não perpetuasse por quatro décadas. A mesma permanece viva em minha mente. Anos e anos especialmente aos domingos de páscoa revivo esta cena. O impressionante disso tudo é a calma que traz aquele momento, aquele homem em nenhum momento transmitiu nem medo e nem aflição, ao contrário, preservo a alegria, paz e a serenidade daquele momento único, quando  sinto sua presença. Preservo um pensamento de carinho, a um amigo de fé de todas as horas e busco sua proteção e guarda, porque:

 - Meu anjo apareceu!
 
O tempo passou mas a criança que ainda há dentro de mim acredita que o anjo apareceu. E que todas as pessoas tem um anjo. Aquele que protege, guarda e ampara: Um soldado a serviço de Deus.